urrar tudo para baixo. Ou cerveja, se for mais fácil.
Tento não ser esquisito demais.
- Há feijões - disse Mord. - Tome - e estendeu o braço.
Tyrion suspirou. O carcereiro não passava de cento e trinta
quilos de grosseira estupidez, com dentes podres escurecidos e
pequenos olhos escuros. O lado esquerdo do rosto era liso,
com uma Beatriz no local em que um machado lhe cortara a
orelha e parte da bochecha. Era tão previsível quanto feio,
mas Tyrion tinha fome. Estendeu a mão para o prato.
Mord o puxou para longe, sorrindo.
- 'Tá aqui - disse, segurando-o fora do alcance de Tyrion.
O anão pôs-se rigidamente em pé, sentindo dores em todas as
articulações.
- Temos de jogar o mesmo jogo idiota a cada refeição? -
tentou de novo apanhar os feijões. Mord afastou-se,
arrastando os pés, mostrando os dentes podres.
- 'Tá aqui, homem anão - esticou o braço sobre a borda onde
terminava a cela e começava o céu. - Não quer comer? Toma.
Ande para pegar.
Os braços de Tyrion eram curtos demais para alcançar o
prato, e não ia se aproximar tanto assim da borda. Bastaria
um empurrão rápido da pesada barriga branca de Mord, e ele
acabaria seus dias como uma repugnante nódoa vermelha nas
pedras de Céu, como acontecera com tantos outros
prisioneiros do Ninho da Águia ao longo dos tempos.
- Pensando bem, não tenho fome - declarou, retirando-se para
o canto da cela.
Mord grunhiu e abriu os dedos grossos. O vento capturou o
prato, virando-o ao contrário enquanto caía. Um punhado de
feijões borrifou os dois enquanto a comida tombava para
longe dos seus olhos. O carcereiro desatou a rir, fazendo a
barriga tremer como uma taça de pudim.
Tyrion sentiu um súbito ataque de raiva.
- Filho duma mula lazarenta - cuspiu. - Espero que morra de
caganeira.
Por aquilo Mord lhe deu um pontapé ao encaminhar-se para a
saída, enterrando com força a bota de ponta de aço nas
costelas de Tyrion.
- Retiro o que disse! - arquejou, enquanto se retorcia na
palha. - Hei de matá-lo eu mesmo, juro! - a pesada porta
reforçada de ferro fechou-se com estrondo. Tyrion ouviu o
ruído de chaves.
Para um homem pequeno, tinha sido amaldiçoado com uma
boca perigosamente grande, refletiu enquanto rastejava de
volta ao canto daquilo que os Arryn chamavam
ridiculamente masmorras. Aconchegou-se sob um cobertor
fino que era sua única roupa de cama, olhando um
deslumbrante céu azul sem uma nuvem e montanhas
distantes que se pareciam prolongar até o infinito, desejando
ainda possuir o manto de pele de gato-das-sombras que
ganhara de Marillion nos dados depois de o cantor tê-lo
roubado do corpo daquele chefe salteador. A pele cheirava a
sangue e mofo, mas era quente e grossa. Mord ficara com ela
no momento em que lhe pusera os olhos em cima.
O vento puxava-lhe o cobertor com rajadas aguçadas como
garras. A cela era miseravelmente pequena, até para um
anão. A menos de um metro e meio de distância, onde deveria
existir uma parede, onde uma parede estaria em uma
masmorra de verdade, o chão terminava e o céu começava.
Não tinha falta de ar fresco e luz do sol, e da lua e das estrelas
à noite, mas Tyrion teria trocado tudo isso num instante pelo
mais úmido e sombrio fosso nas entranhas de Rochedo
Casterly,
- Você vai voar - garantira-lhe Mord, quando o enfiara na
cela. - Vinte dias, trinta, se calhar, cinquenta. Depois vai
voar.
Os Arryn mantinham a única masmorra no reino de onde os
prisioneiros eram livres para fugir se bem entendessem.
Naquele primeiro dia, depois de levar horas cobrindo-se de
coragem, Tyrion deitara-se de barriga para baixo e rastejara
até a borda para pôr a cabeça para fora e espreitar para
baixo. O Céu estava cento e oitenta metros mais abaixo, sem
nada, a não ser o ar para separá-lo do castelo. Se esticasse o
pescoço o máximo possível, conseguia ver outras celas à
direita, à esquerda e acima. Era uma abelha numa colmeia de
pedra, e alguém lhe arrancara as asas.
Fazia frio na cela, o vento uivava noite e dia e, pior que tudo
o mais, o chão era inclinado. Só um pouco, mas o suficiente.
Tinha medo de fechar os olhos, medo da possibilidade de rolar
durante o sono e acordar em total terror no momento em que
deslizasse pela borda. Pouco admirava que as celas abertas
enlouquecessem os homens.
Que os deuses me.salvem, escrevera na parede um inquilino
anterior qualquer, usando algo que se parecia, de forma
suspeita, com sangue, o azul está chamando. A princípio
Tyrion interrogou--se sobre quem teria sido ele e o que lhe
teria acontecido; mais tarde, decidiu que preferia não saber.
Se ao menos tivesse calado a boca...
O maldito rapaz começara tudo, olhando-o de cima de um
trono esculpido em represeiro sob os estandartes da lua e do
falcão da Casa Arryn. Tinham olhado de cima para Tyrion
Lannister ao longo de toda a sua vida, mas era raro que quem
o fizesse fosse um menino remelento de seis anos que
precisava enfiar grossas almofadas debaixo das nádegas para
se elevar à altura de um homem,
- Este é o homem mau? - perguntou o rapaz, agarrando-se à
sua boneca.
- É - respon